terça-feira, 30 de abril de 2013



As crianças em 1º

Nos últimos dias muito tem se noticiado em volta da polémica decisão do parlamento Francês em liberalizar o casamento gay e a adopção por casais do mesmo sexo.
Assim, mesmo sabendo que poderei conquistar alguns inimigos com a minha opinião, não poderia deixar de a exprimir, pois só assim poderei ter alguma tranquilidade de consciência e ver abrandados os meus remorsos provocados, pelas condições muitas vezes, quase desumanas em que muitas crianças se encontram, institucionalizadas.
Fico pois muito admirado que um país, em que há vários anos teve lugar uma revolução com o lema “Liberdade, Igualdade e Fraternidade", que serviu de exemplo para muitas outras revoltas um pouco por toda a Europa só agora tenha tomado estas medidas.
Custando-me entender o porquê de tantas manifestações, o que me leva a pensar que os ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, tem vindo aos poucos a ser postos de lado. Assim, lamento que a França não posso, uma vez mais, servir de exemplo para os restantes países da Europa que tardam em adotar estas medidas.
Numa primeira fase, comecemos por dissociar as medidas do parlamento Francês de forma independente, para depois podermos olhar um pouco para aquilo que é a realidade Portuguesa.
De um lado, está o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quanto a este facto, considero que o que esta em causa são os direitos e a liberdades de duas pessoas adultas, que na minha concepção, tal como qualquer casal heterossexual são livres de amar e se relacionarem da forma que bem entenderem!
Por outro lado, está a adopção de crianças, por parte destes mesmos indivíduos após se casarem. Esta sim penso que é a questão que esta na origem de tanta contestação, que levanta mais polémica e apreensão na maioria das pessoas. Assim penso que todos estarão de acordo comigo quando digo que em primeiro lugar devemos colocar o bem-estar da criança!
Sei que muitas pessoas têm reservas quanto a este tema, considerando que uma criança que seja criada numa família em que existe ausência de um pai ou mãe, e que por outro lado, existe uma duplicação destes papéis, poderá ter problemas de crescimento, ser vítima de descriminação, e que estará fatalmente “condenada” a também ela ser gay (sendo esta última questão a que provavelmente causa mais controvérsia.) 
Pois bem; nos tempos que correm os filhos de um casal heterossexual, facilmente convivem com casais gays, e não acredito que esta convivência possa alterar os seus gostos e predisposições, salientando que todas as pessoas gays são o resultado de uma relação  heterossexual que em muitos casos esteve presente ao longo de toda a sua vida.
 Assim acredito que da mesma forma que um filho de um casal heterossexual pode ser gay, um filho de um casal gay pode ser heterossexual.
Quanto aos problemas de crescimento, considero que todas as crianças que sejam bem cuidadas, alimentadas e alvo de afectos, quer estes provenham de um casal gay ou heterossexual, têm exactamente a mesma probabilidade de, por exemplo, ter sarampo ou apanharem uma gripe,  de se tornarem em adultos violentos, depressivos ou frustrados, ou de serem pessoas realizadas e inteiramente integradas na sociedade (desde que não sejam vitimas de descriminação que tanto pode ser por ter pais gays ou por usar óculos)ou exemplos talento e sucesso
Quanto ao serem vítimas de bullying, de facto, este é um risco que poderá acontecer, no entanto, ainda há poucos dias vi crianças de um infantário chamarem mina a um rapaz, apenas porque esta criança devido às suas origens africanas tem cabelo comprido e muito encaracolado ou, por exemplo, quem é que já não viu uma criança ser alvo de chacota por usar óculos?…
Chamo à atenção que os pais desta criança por serem gays, também eles certamente, em dado momento das suas vidas, foram descriminados, gozados e até repudiados, por isso, encontram-se bastante sensibilizados e prevenidos para este tipo de questões, sendo este facto case que uma garantia de que iram tentar preparar a criança para lidar com este tipo de descriminação, podendo mesmo adotar comportamentos excessivamente proteccionistas.
Agora olhemos então para a realidade portuguesa, numa primeira fase para as questões relacionadas com o casamento e adopção e, depois para a realidade de muitas das crianças que se encontram institucionalizadas
Como penso ser do conhecimento de todos já é permitido em Portugal o casamento entre pessoas do mesmo sexo, no entanto, essa mesma lei, proíbe expressamente a adopção de crianças por casais gays. Esta medida deixou como já é hábito em muitas das nossas leis, um vazio legal, que permite a uma pessoa gay a título singular adotar uma criança!
Agora imaginemos que o Pedro ou Ana decidem adotar uma criança, e que depois de terminado o processo de adopção resolve partilhar a sua vida com uma outra pessoa. Ao fim de 15 anos por alguma fatalidade esta mãe/pai de afecto morre. Sabem o que acontece a esta criança? A resposta  a esta pergunta perece-me no mínimo ter requintes de malvadez.
Esta criança agora a debater-se com as normais questões da adolescência, e enlutada, que durante vários anos conviveu e foi feliz ao viver com dois pais ou com duas mães, tem que ser devolvida a uma instituição da qual foi retirada por meio da adopção (é lamentável que se fale tanto no Superior interesse da criança e se comentam atrocidades como esta, parece-me que estamos a falar de um rapto absurdamente “legal” e grotesco!) Sim por mais surreal que possa parecer é mesmo isto que acontece!
O outro pai/mãe não tem qualquer direito a ficar com a criança e caso o queira fazer terá de voltar a iniciar um novo e moroso processo de adopção.
Tentemos ir um pouco mais longe, com a nossa imaginação, pensemos que a criança herda uma considerável fortuna, para a qual terá que ser nomeado um tutor legal, o mais provável é atrair a atenção de pessoas que nunca se preocuparam com a criança, que depois de raptada se arrisca a ser explorada e extorquida.

Permitam-me que fale um pouco das instituições de acolhimento de menores, que frequentemente vi descritas como guetos, ou escolas de delinquência.
Há bem pouco tempo convivi de perto com a realidade de crianças que se encontram institucionalizadas e a quem as instituições aos poucos vão roubando a sua infância, identidade e individualidade.
Em muitos albergues deste país as crianças têm que partilhar as suas roupas, incluindo as roupas interiores com todas as outras crianças da instituição, bem como objectos de higiene pessoal (escova de dentes, por exemplo). Em alguns casos não lhes são incutidas regras básicas: por exemplo, muitas não entendem o porquê da necessidade de tomar banho diariamente, e as que o tentam fazer não raras vezes têm falta de meios para o fazer (em muitos casos não e possível terem privacidade para tomar banho, faltam-lhes bens, o champô, o gel de banho e o papel higiénico são racionados, em alguns casos em quantidades mínimas). Muitas delas, não têm sequer uma gaveta para poderem guardar alguns pertences. Quando estas crianças têm contacto com outras que não se encontram institucionalizadas são também elas alvo de bullying de elevadíssima violência.
Na maioria destas instituições as pessoas que lá trabalham já lá estão há muito tempo, tendo adquirido uma enorme frieza em relação às dificuldade das crianças que estão a seu cargo, e mostrando uma enorme resistência a quem vem de novo e tenta melhorar algumas das condições de vida destas crianças. Crianças estas que em muitos casos nunca chegaram a ter a sua própria família. Sem falar que volta e meia lá vêm notícias de maus tratos a crianças institucionalizadas. Acreditem que tudo o que estas crianças conseguem, o conseguem sem dúvida alguma por mérito próprio e a custa de muito esforço!
Relembro ainda que no nosso país há um caso bem conhecido de adopção de uma criança por um casal gay, sem que se tenha criado grande polémica em torno deste assunto, que em alguns casos foi louvado. Ficara este acontecimento a dever-se ao facto desta criança ter Trissomia 21, pois se for esta a razão, estamos novamente perante um caso claro de descriminação.

Desocultando e reescrevendo estas invisibilidades, proponho uma reflexão que possa permitir abrir espaços de discussão e reflexão, contribuindo dessa forma, para que este assunto volte a estar na agenda social, e para que as crianças passem realmente ser o tema central desta discussão, e não as preferências sexuais de um qualquer indivíduo!
Com este texto não procuro solidarizar-me com a causa gay, somente manifestar a minha preocupação com o bem-estar físico e emocional de todas as crianças que sem pedirem foram trazidas ao mundo. 
Respeitando obviamente toda a comunidade gay, e defendendo que devem ter a mesma liberdade, garantia e deveres que qualquer ser humano!
Em suma considero que toda e qualquer pessoa que tiver disponibilidade efectiva e material deve ser livre de adotar uma criança, já que muitas vezes penso que o termo mais coreto não seria adotar mas sim resgatar.




5 comentários:

  1. Gostaria de deixar aqui o meu agradecimento ao meu amigo Manuel Damas, pois se não fosse a sua disponibilidade é ajuda este texto não poderia ter saído da gaveta. Gostaria ainda de agradecer a Fundação Casa (Centro Avançado de Sexualidades e Afectos) a qual ele preside.
    Manuel aqui te deixo, um forte Abraço

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  2. Bom dia
    Gostaria de pedir a todos os meus amigos que ajudassem na divulgação deste texto.
    Não faço a menor ideia se existem ou não muitos casais gays com vontade e capacidade para adoptar uma criança. Mas sei por experiência própria que mais vale ter dois pais ou doas mães do que não ter pai ou mãe alguma.
    Recordo ainda que se uma criança esta institucionalizada, esta muito quase que invariavelmente nasceu de uma relação heterossexual (como a maioria das crianças), e que por condições adversas e possivelmente traumáticas acabou institucionalizada.
    Assim acredito que qualquer criança que possa vir a ser resgatada já é uma Vitoria.

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  3. Gostava também de esclarecer, que existem instituições, onde as crianças são verdadeiramente acolhidas e bem tratadas. E de dar os meus parabéns e assas pessoas que diariamente criam laços com crianças que nunca serram inteiramente suas, e que um dia podem sentir a saudade, ao velas partir rumo a uma nova casa. Mas sei que também o vêm com alegria.

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  4. Eu que já lidei devido ao meu emprego com estas Instituições dou-lhe os meus parabéns pelo texto. De facto é isto infelizmente que acontece em algumas Instituições. Crianças num vazio. Crianças sem voz. E não podemos fazer nada pois as Direcções técnicas é que possuem o poder. Quero realçar que as Instituições que acolhem, ou melhor inserem estas crianças num projecto de vida estão de parabéns.

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