segunda-feira, 29 de julho de 2013

Ensino superior à Portuguesa.


É difícil saber por onde começar, pois há muito que dizer. Talvez o melhor seja iniciar este exercício de reflecção pela forma como os alunos chegam às faculdades, não sei se a população, em geral, tem conhecimento de que em algumas Universidades é possível entrar em determinados cursos com uma média, que na minha opinião, embora considerada matematicamente positiva não deixa de ser negativa (9,5), é por exemplo o caso de engenharia florestal na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas já houve exemplos piores recordo-me, vagamente de quando acabei o 12º ano, se dizer que o curso de matemática da universidade do Porto era o mais fácil para entrar e o mais difícil para sair, uma vez que quem quisesse apenas entrar na universidade por vaidade lhe bastaria um 7,5! Podia era não conseguir terminar o curso! Entretanto pelo que pude apurar a média subiu para 10,8. Sei que algumas pessoas me vão considerar fundamentalista, mas por ter privado com algumas turmas do ensino superior, arrisco-me a dizer que idealmente todos os cursos deviam ter uma nota mínima de acesso de 12 valores, uma vez que as várias turmas com que contactei, de diferentes Universidades, de diferentes cursos e diferentes níveis, todas elas revelaram uma enorme falta de capacidade crítica, baixa capacidade de reflexão, péssima capacidade de redacção e organização de ideias e, em muitos casos, falta de respeito pelas regras de conduta cívica e de comportamento. Por exemplo, recentemente tive acesso a relatórios de estágio com níveis de escrita e de apresentação ao nível dos meus trabalhos do 4º ano  (e eu até nem fui um grande aluno).
E se a minhas observações já dão que pensar, o que dizer do elevado número de alunos que entram no ensino superior através do programa de novas oportunidades? Do qual um ex ministro apareceu para a opinião pública como o expoente máximo (o que poderá não ser verdade!). Tanto as universidades públicas, devido à sua necessidade de atingir determinado número de alunos para conseguir aumentar o seu financiamento, bem como as privadas, por razões similares, acabam por dar equivalências e aceitar alunos mais com base nos números do que no mérito dos candidatos, embora se deva salientar que também há quem entre com base nas suas reais aptidões embora sejam uma reduzida minuíra. No entanto, devo salientar que recentemente houve um ministro que depois de ajudar e expulsar “um falso licenciado” do governo, alterou os critérios de atribuição de créditos e limitou o número de equivalências que podem ser dadas.

Agora vejamos o que acontece depois de lá estarem. Recentemente o nosso país adoptou Bolonha que diminuindo em dois anos o tempo necessário para conseguir completar uma “licenciatura” (chamado agora 1º ciclo), tornando os mestrados quase obrigatórios. Consequentemente sinto que houve uma banalização dos títulos académicos inclusive os doutoramentos, que pelo que sei apenas tem uma escala de avaliação na Universidade de Coimbra entre aprovado, aprovado com distinção e aprovado com distinção e louvor. Assim pergunto-me como fui possível congregar em 3 anos os conhecimentos que até então se consideravam básicos e se aprendiam em 5 anos.

Falemos agora das instituições de ensino superior, sendo que muitas delas estão ou passaram recentemente por processos de acreditação dos seus cursos, que em alguns casos já vem sendo ministrados há alguns anos levando-me a questionar o que acontece aos licenciados de determinado curso caso este não seja acreditado.
- Mais, quando se criaram os institutos e os politécnicos, não foi com o intuito de formar profissionais e não licenciados?
Sinto que falta ao país um sistema de ensino em que se possa simplesmente aprender uma profissão e ser de imediato integrado no mercado de trabalho, talvez por isso, nos faltem soldadores e sobrem, por exemplo, assistentes sociais (entre outros). Sim quando falo de assistentes sociais, falo com uma razão de ser. Se não me engano no nosso país existem 22 instituições a formar assistentes sociais ou devo dizer desempregados. Sei que cada vez as carências sociais do meu povo são maiores, mas será que temos capacidade para absorver os milhares de assistentes sociais que terminam o seu curso todos os anos? Tenho sérias dúvidas quanto a isso.

Quanto aos professores, “recentemente” saiu uma lei que obriga a que todos os docentes universitários tenham doutoramento ou no caso dos Politécnicos e dos Institutos sejam especialistas. O que genericamente até me parece ser uma boa decisão!
Mas, observando com um pouco mais de atenção, rapidamente me apercebo de que há vários professores com o título de especialista a leccionar como professor principal ou até mesmo a coordenar cadeiras não práticas, o que honestamente me parece um pouco desadequado, uma vez que, os critérios que são necessários reunir para obter o título de especialista se baseiam na experiência profissional dos candidatos, experiência essa que muitas vezes deixa de fora o conhecimento cientifico. Por exemplo, conheço trolhas que são perfeitamente capazes de erguer uma casa, mas que não têm a capacidade para determinar qual o tipo de viga a utilizar no restauro num determinado edifício, garantindo que esta tem capacidade para aguentar os esforços a que será sujeita, e de assegurar a rentabilidade da obra, ou com capacidade de construir um prédio!
 Mais, existem professores que têm conseguido obter o seu título de especialistas ao abrigo de protocolos entre institutos. Para facilitar a compreensão utilizemos o seguinte exemplo. O Instituto (A) envia os seus professores ao Instituto (B) para fazerem as provas para o título de especialistas. Por seu lado, o Instituo (A) envia os seus professores ao instituto (B), para que ninguém saia prejudicado, assim os júris deste tipo de provas são criteriosamente escolhidos, ao ponto de saírem de uma sala onde estiveram a decorrer as ditas provas e dizerem que não sabem se fizeram bem em dar o seu voto favorável a um trabalho, que em muitos casos, não passa de um C.V altamente pormenorizado. Tão pormenorizado que leva alguns candidatos a incluir pormenores contraditórios ou a escreverem que não puderam concluir uma dada tarefa porque tiveram uma “gripe” será que este tipo de pormenores é realmente relevante para o desenvolvimento de uma carreira de docente?
Podemos ainda falar do conteúdo programático de algumas cadeiras, de alguns cursos em, que professores dão aulas inteiramente baseadas em livros com mais de 50 anos!!!
E se os nossos alunos se sentem desmotivados para lutar por um futuro melhor, o que sentirá um professor que foi contratado a tempo parcial, e numa categoria inferior à sua para leccionar uma disciplina? Há universidades a aproveitar as dificuldades do mercado de trabalho e a contratar professores por valores irisorios.


Felizmente ainda assim sei que existem boas instituições de ensino, onde se graduam excelentes profissionais, que conseguem obter elevadíssimos níveis de reconhecimento nacional e internacional, lamentando apenas que se fale pouco destes! Mas até entendo que a tendência seja sobretudo falar das coisas mas, uma vez que pelo menos eu o faço com a intenção de despertar mentalidades que possam conduzir a alteração destes critérios.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ensino à medida da mentalidade Portuguesa!

 


Há alguns tempos, uma corrente da psicologia com a ajuda de alguns peritos da educação, defendiam a teoria de que, uma criança reprovar no ensino primário podia ser traumático, esquecendo-se que a maioria dos processos educativos tem muitas vezes, pequenos traumas, que acabam por ter um papel fundamental na educação de uma criança. No entanto, até poderei compreender que as crianças não reprovem no primeiro ano de escolaridade, mas a partir daí parece-me contraproducente. A isto juntou-se o facto, dos professores terem de questionar os pais se deviam ou não reprovar uma criança com base no seu desempenho, sendo que a resposta na grande maioria das vezes era negativa, pois muitos pais consideravam “vergonha que o filho reprovasse” optando por deixar a criança transitar de ano, mesmo não estando preparado, e esquecendo que mais que a vergonha que os pais poderiam vir a sentir entre os seus amigos, muito provavelmente estariam a expor a criança a mais dificuldades e ao Bulling dos colegas. (eu felizmente tive a sorte de reprovado na 4ª classe, pelas mãos minha mãe, professora primária). Para terminar a paródia em beleza as professores tinham de cumprir uma percentagem de reprovações.
Consequência lógica as crianças chegavam ao 5º ano sem terem a devida preparação, mas similarmente aqui acabavam por conseguir transitar de ano sem cumprir alguns dos requisitos mínimos, muitas das vezes, porque os professores não lhes podiam dar atenção suficiente para lhes ensinar o que tinha ficado por aprender no ensino primário, sobre pena de acabarem por prejudicar a turma ou de não conseguirem cumprir o programa lectivo. Assim estas crianças foram sendo chutadas de ano para ano. Felizmente parece-me que estão a ocorrer algumas alterações nesta matéria com a implementação, na minha opinião tardia, dos exames nacionais no 4º ano, mas mais vale tarde do que nunca como se costuma dizer!
Uma vez no ensino secundário e pelas razões anteriormente referidas as crianças iam transitando de ano, desde que não tivessem mais de três negativas sendo que estas até poderiam ser a Português e a matemática. Ou seja, é possível transitar de ano tendo negativa à própria Língua e a matemática, disciplina considerada nuclear, embora considere que os programas lectivos destas cadeiras devam ser revistos, considero que nenhum aluno devia ter a possibilidade de transitar de ano com negativa a estas duas disciplinas. O facto de transitarem de ano sem terem os seus conhecimentos devidamente consolidados e de os programas estarem desactualizados, provocam igualmente uma crescente desmotivação dos alunos, que vão dando cada vez menos atenção ao estudo.
Uma vez que não quero importunar nem entediar os meus leitores sou forçado a deixar o ensino superior, para um outro artigo a ser publicado na próxima semana, ainda mais que esta é uma realidade a parte, e que ao contraio do ensino primário tem vindo a baixar cada vez mais de nível.

As boas resoluções padecem de uma fatalidade: tomamo-las sempre demasiado, tarde. (Óscar Wilde)

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Mentalidades

  Mentalidades


Por várias ocasiões tive oportunidade de dizer, que a crise que o nosso país está a atravessar, muito mais que uma crise económica, é uma crise de valores e de educação. Assim sendo, é chegado o momento de expor os meus pontos de vista.
Começando por aquilo que penso ser a mentalidade predominante entre a maioria dos Portugueses que durante anos foi descrita como mesquinha, retrógrada, e inculta, e que hoje passou a ser uma mentalidade baseada na necessidade de reconhecimento conseguido através do exibicionismo – aquilo a que alguns chamam mentalidade do “novo riquíssimo” – e pelo fanatismo dos títulos académicos. Mas para facilitar a compreensão do meu ponto de vista vou-me permitir recorrer a uma pequena história.
D. Maria encontrou na rua a sua vizinha D. Fátima que, após a troca das habituais cortesias, perguntou o que era feito dos filhos.
– Estão muito bem um já terminou o curso de Direito há algum tempo e devido a falta de trabalho esta a fazer o Doutoramento, o mais novo esta no curso de Medicina. E os seus, D. Fátima?
– A minha filha lá vai lutando pela vida dela esta a trabalhar como empregada domestica enquanto termina o curso à noite e o meu rapaz está a tirar um curso de calceteiro.
Após trocarem mais algumas palavras, cada uma destas senhoras seguiu o seu caminho, até que, um pouco depois, a D. Maria encontra uma outra vizinha.
– Já soube que a filha da D. Fátima anda a trabalhar como mulher das limpezas e como se não basta-se o filho anda a estudar para calceteiro. Coitado do rapaz não dava para mais…
O que D. Fátima se esqueceu de dizer foi que o seu filho mais velho anda a fazer o mestrado em Direito, porque a taxa de desemprego entre esta classe profissional é gigantesca, o que leva com que muitos recém-licenciados acabem por desempenhar funções que nada tem a ver com a sua formação e que o tempo médio até conseguirem um emprego na sua área é superior a 5 anos e em muitos casos será um emprego precário e mal pago.
D. Maria não deve ter visto algumas das notícias que tem passado nos telejornais onde, há algum tempo, através de um estudo comparativo, se descobriu que, por exemplo, em Viana do Castelo há empregadas de limpeza a ganhar mais do que alguns médicos; uma outra reportagem dava conta da procura crescente de calceteiros a nível nacional e internacional, falando de elevadas expectativas de vencimento no estrangeiro!

Lamento o facto de vivermos num país em que o estado fomentou aquilo que considero ser uma paranóia: a caça aos títulos académicos, esquecendo a formação técnico-profissional. O que faz com que haja cada vez mais licenciados desempregados e cada vez menos profissionais técnicos para dar resposta às necessidades. São exemplo disso a industria do calçado e da metalomecânica onde falta mão-de-obra qualificada e onde as escolas de formação da área contam com tachas de empregabilidade superiores a 90%.

Escrito por: José Azevedo
revisto por: Sílvia Alves