Ensino superior à Portuguesa.
É difícil saber por onde começar, pois há muito que dizer. Talvez
o melhor seja iniciar este exercício de reflecção pela forma como os alunos
chegam às faculdades, não sei se a população, em geral, tem conhecimento de que
em algumas Universidades é possível entrar em determinados cursos com uma média,
que na minha opinião, embora considerada matematicamente positiva não deixa de
ser negativa (9,5), é por exemplo o caso de engenharia florestal na Universidade
de Trás-os-Montes e Alto Douro. Mas já houve exemplos piores recordo-me,
vagamente de quando acabei o 12º ano, se dizer que o curso de matemática da
universidade do Porto era o mais fácil para entrar e o mais difícil para sair,
uma vez que quem quisesse apenas entrar na universidade por vaidade lhe
bastaria um 7,5! Podia era não conseguir terminar o curso! Entretanto pelo que
pude apurar a média subiu para 10,8. Sei que algumas pessoas me vão considerar
fundamentalista, mas por ter privado com algumas turmas do ensino superior, arrisco-me
a dizer que idealmente todos os cursos deviam ter uma nota mínima de acesso de 12
valores, uma vez que as várias turmas com que contactei, de diferentes Universidades,
de diferentes cursos e diferentes níveis, todas elas revelaram uma enorme falta
de capacidade crítica, baixa capacidade de reflexão, péssima capacidade de
redacção e organização de ideias e, em muitos casos, falta de respeito pelas
regras de conduta cívica e de comportamento. Por exemplo, recentemente tive acesso
a relatórios de estágio com níveis de escrita e de apresentação ao nível dos
meus trabalhos do 4º ano (e eu até nem
fui um grande aluno).
E se a minhas observações já dão que pensar, o que dizer do elevado
número de alunos que entram no ensino superior através do programa de novas
oportunidades? Do qual um ex ministro apareceu para a opinião pública como o
expoente máximo (o que poderá não ser verdade!). Tanto as universidades
públicas, devido à sua necessidade de atingir determinado número de alunos para
conseguir aumentar o seu financiamento, bem como as privadas, por razões similares,
acabam por dar equivalências e aceitar alunos mais com base nos números do que
no mérito dos candidatos, embora se deva salientar que também há quem entre com
base nas suas reais aptidões embora sejam uma reduzida minuíra. No entanto,
devo salientar que recentemente houve um ministro que depois de ajudar e expulsar
“um falso licenciado” do governo, alterou os critérios de atribuição de
créditos e limitou o número de equivalências que podem ser dadas.
Agora vejamos o que acontece depois de lá estarem. Recentemente o
nosso país adoptou Bolonha que diminuindo em dois anos o tempo necessário para
conseguir completar uma “licenciatura” (chamado agora 1º ciclo), tornando os
mestrados quase obrigatórios. Consequentemente sinto que houve uma banalização
dos títulos académicos inclusive os doutoramentos, que pelo que sei apenas tem
uma escala de avaliação na Universidade de Coimbra entre aprovado, aprovado com
distinção e aprovado com distinção e louvor. Assim pergunto-me como fui
possível congregar em 3 anos os conhecimentos que até então se consideravam
básicos e se aprendiam em 5 anos.
Falemos agora das instituições de ensino superior, sendo que
muitas delas estão ou passaram recentemente por processos de acreditação dos
seus cursos, que em alguns casos já vem sendo ministrados há alguns anos
levando-me a questionar o que acontece aos licenciados de determinado curso
caso este não seja acreditado.
- Mais, quando se criaram os institutos e os politécnicos, não foi
com o intuito de formar profissionais e não licenciados?
Sinto que falta ao país um sistema de ensino em que se possa
simplesmente aprender uma profissão e ser de imediato integrado no mercado de
trabalho, talvez por isso, nos faltem soldadores e sobrem, por exemplo,
assistentes sociais (entre outros). Sim quando falo de assistentes sociais,
falo com uma razão de ser. Se não me engano no nosso país existem 22
instituições a formar assistentes sociais ou devo dizer desempregados. Sei que
cada vez as carências sociais do meu povo são maiores, mas será que temos
capacidade para absorver os milhares de assistentes sociais que terminam o seu
curso todos os anos? Tenho sérias dúvidas quanto a isso.
Quanto aos professores, “recentemente” saiu uma lei que obriga a
que todos os docentes universitários tenham doutoramento ou no caso dos
Politécnicos e dos Institutos sejam especialistas. O que genericamente até me
parece ser uma boa decisão!
Mas, observando com um pouco mais de atenção, rapidamente me
apercebo de que há vários professores com o título de especialista a leccionar
como professor principal ou até mesmo a coordenar cadeiras não práticas, o que honestamente
me parece um pouco desadequado, uma vez que, os critérios que são necessários reunir
para obter o título de especialista se baseiam na experiência profissional dos
candidatos, experiência essa que muitas vezes deixa de fora o conhecimento cientifico.
Por exemplo, conheço trolhas que são perfeitamente capazes de erguer uma casa,
mas que não têm a capacidade para determinar qual o tipo de viga a utilizar no
restauro num determinado edifício, garantindo que esta tem capacidade para
aguentar os esforços a que será sujeita, e de assegurar a rentabilidade da
obra, ou com capacidade de construir um prédio!
Mais, existem professores
que têm conseguido obter o seu título de especialistas ao abrigo de protocolos
entre institutos. Para facilitar a compreensão utilizemos o seguinte exemplo. O
Instituto (A) envia os seus professores ao Instituto (B) para fazerem as provas
para o título de especialistas. Por seu lado, o Instituo (A) envia os seus professores
ao instituto (B), para que ninguém saia prejudicado, assim os júris deste tipo
de provas são criteriosamente escolhidos, ao ponto de saírem de uma sala onde
estiveram a decorrer as ditas provas e dizerem que não sabem se fizeram bem em
dar o seu voto favorável a um trabalho, que em muitos casos, não passa de um C.V
altamente pormenorizado. Tão pormenorizado que leva alguns candidatos a incluir
pormenores contraditórios ou a escreverem que não puderam concluir uma dada
tarefa porque tiveram uma “gripe” será que este tipo de pormenores é realmente
relevante para o desenvolvimento de uma carreira de docente?
Podemos ainda falar do conteúdo programático de algumas cadeiras,
de alguns cursos em, que professores dão aulas inteiramente baseadas em livros
com mais de 50 anos!!!
E se os nossos alunos se sentem desmotivados para lutar por um futuro
melhor, o que sentirá um professor que foi contratado a tempo parcial, e numa categoria
inferior à sua para leccionar uma disciplina? Há universidades a aproveitar as
dificuldades do mercado de trabalho e a contratar professores por valores irisorios.
Felizmente ainda assim sei que existem boas instituições de ensino,
onde se graduam excelentes profissionais, que conseguem obter elevadíssimos níveis
de reconhecimento nacional e internacional, lamentando apenas que se fale pouco
destes! Mas até entendo que a tendência seja sobretudo falar das coisas mas,
uma vez que pelo menos eu o faço com a intenção de despertar mentalidades que possam
conduzir a alteração destes critérios.
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