Mentalidades
Por várias ocasiões tive oportunidade de dizer, que a crise
que o nosso país está a atravessar, muito mais que uma crise económica, é uma crise
de valores e de educação. Assim sendo, é chegado o momento de expor os meus
pontos de vista.
Começando por aquilo que penso ser a mentalidade
predominante entre a maioria dos Portugueses que durante anos foi descrita como
mesquinha, retrógrada, e inculta, e que hoje passou a ser uma mentalidade
baseada na necessidade de reconhecimento conseguido através do exibicionismo –
aquilo a que alguns chamam mentalidade do “novo riquíssimo” – e pelo fanatismo
dos títulos académicos. Mas para facilitar a compreensão do meu ponto de vista
vou-me permitir recorrer a uma pequena história.
D. Maria encontrou na rua a sua vizinha D. Fátima que, após
a troca das habituais cortesias, perguntou o que era feito dos filhos.
– Estão muito bem um já terminou o curso de Direito há algum
tempo e devido a falta de trabalho esta a fazer o Doutoramento, o mais novo
esta no curso de Medicina. E os seus, D. Fátima?
– A minha filha lá vai lutando pela vida dela esta a
trabalhar como empregada domestica enquanto termina o curso à noite e o meu
rapaz está a tirar um curso de calceteiro.
Após trocarem mais algumas palavras, cada uma destas
senhoras seguiu o seu caminho, até que, um pouco depois, a D. Maria encontra
uma outra vizinha.
– Já soube que a filha da D. Fátima anda a trabalhar como
mulher das limpezas e como se não basta-se o filho anda a estudar para
calceteiro. Coitado do rapaz não dava para mais…
O que D. Fátima se esqueceu de dizer foi que o seu filho
mais velho anda a fazer o mestrado em Direito, porque a taxa de desemprego
entre esta classe profissional é gigantesca, o que leva com que muitos recém-licenciados
acabem por desempenhar funções que nada tem a ver com a sua formação e que o
tempo médio até conseguirem um emprego na sua área é superior a 5 anos e em
muitos casos será um emprego precário e mal pago.
D. Maria não deve ter visto algumas das notícias que tem
passado nos telejornais onde, há algum tempo, através de um estudo comparativo,
se descobriu que, por exemplo, em Viana do Castelo há empregadas de limpeza a
ganhar mais do que alguns médicos; uma outra reportagem dava conta da procura
crescente de calceteiros a nível nacional e internacional, falando de elevadas expectativas
de vencimento no estrangeiro!
Lamento o facto de vivermos num país em que o estado fomentou
aquilo que considero ser uma paranóia: a caça aos títulos académicos,
esquecendo a formação técnico-profissional. O que faz com que haja cada vez
mais licenciados desempregados e cada vez menos profissionais técnicos para dar
resposta às necessidades. São exemplo disso a industria do calçado e da
metalomecânica onde falta mão-de-obra qualificada e onde as escolas de formação
da área contam com tachas de empregabilidade superiores a 90%.
Escrito por: José Azevedo
revisto por: Sílvia Alves
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