quinta-feira, 24 de outubro de 2013

"Uma entrevista imaginada sem mentiras"

Agora vejamos se eu consigo explicar aos Portugueses, e de forma convincente a origem do défice tarifário. Imaginemos, para isso, uma possível conversa entre este senhor, dando resposta com uma invulgar e inacreditável sinceridade e um destemido jornalista preste a aumentar o número de desempregados.

- O défice tarifário é facilmente explicável, tenho a certeza de que todos os Portugueses serão capazes de compreender a sua origem. Ele resulta do facto da EDP devido ao Mercado Regulado ter fornecido energia abaixo, do preço de custo.
-Para facilitar a compreensão, imaginemos que a EDP vende a energia 1€ o KW/H mas que para o produzir gasta 1,20€.
-E qual será o montante do défice até ao fim deste ano?
- Em princípio segundo as últimas previsões deve atingir os 3800 milhões no fim deste ano, e prevê-se que continue a crescer até 2016.
- No entanto eu tenho a sensação que a minha factura da electricidade não para de aumentar!
-Sim, mas isso apenas reflecte uma parte muito reduzida do aumento dos preços, por exemplo com combustíveis para produção da energia eléctrica.
- Mas se existe um défice é assim tão grande, como conseguiu convencer os donos da EDP de que seria possível baixar as tarifas, caso o governo que nem princípio nada tem a ver, com a administração da EDP aumentasse a TSU dos Trabalhadores! Para além disso tenho uma vaga ideia da EDP conjuntamente com o antigo governo ter anunciado um forte investimento em energias renováveis, com vista a diminuição desses custos!
- Sim, sem dúvida alguma é inegável o esforço de Portugal nessa matéria. Desde 2008 que temos em funcionamento as 2 maiores centrais de produção de energia solar do mundo. A maior estima-se que seja capaz de satisfazer as necessidades de 30 mil habitações. E ocupámos ainda o 13º lugar no ranking dos maiores parques eólicos do mundo. Estes são motivos que nos devem fazer sentir orgulhosos.
- Mas, doutor, apesar de tudo isso,  não deixamos de ter uma das tarifas mais caras da Europa. Por exemplo na Galiza o custo da energia eléctrica para a industria é 21€ mais barato do que o Praticado pela EDP.
- Sabe como é, nós na EDP, queremos estar sempre entre os primeiros, e obviamente temos uma grande avidez de lucro. Eu até iria mais longe dizendo que temos uma avidez incontrolável por lucros. 
- Algumas pessoas dizem que muitas das eólicas que vemos um pouco por todo país não estão ligadas a nada.
- Isso não corresponde de todo à verdade. A realidade é que neste momento até temos excesso de produção e estamos a dar energia a Espanha. Em alguns casos até criamos sistemas de alimentação cíclica. Como acontece em algumas barragens em que utilizamos, bombas para voltar a repor os níveis das albufeiras após abrirmos as suas comportas.
-Isso, até nem me parece mal. Pensado assim, aproveitam o excedente energético para termos a certeza que em momentos de menor produção conseguimos compensar. Mas voltemos à questão do Défice Tarifário. O montante que referiu será pago por quem?
- Este montante terá obrigatoriamente de ser pago pelos Portugueses, quer seja por via directa ou através do estado, uma vez que esta divida já foi vendida na sua totalidade à banca, que como sabemos é neste momento um cobrador sedento de rendimentos.
- Qual foi a razão que levou à venda desta divida à banca?
- Essa é uma resposta igualmente fácil. A EDP, tal como todas as outras empresas, tem necessidade de obter capitais, para poder fazer novos investimentos, mesmo que alguns deles se possam revelar fontes de prejuízo, o importante é não parar. Os Portugueses também devem ter em linha de conta que somos uma empresa cotada em bolsa, que obviamente quer apresentar resultados positivos aos seus accionistas.
_Será que se eu for ter com o banco e lhes perguntar se eles querem assumir, os salários que o meu patrão me deve, e depois ir cobrá-los à taxa de juro que ele bem entender, eles também irão aceitar?
- Claro que não, ou será que já lhe devem uns milhões? «Ó homem você no máximo ganha uns 500€ se não estiver a ganhar a peça».
- Tanto quanto me foi possível apurar a EDP, nos últimos anos tem reportado lucros acima dos 1000 milhões € por ano.
- Sim, é verdade, que temos obtido resultados muito positivos...
- O que me descreve faz lembrar um pouco as razões que levaram a crise do subprime!
- Sim, é relativamente idêntico ao que a EDP fez, bem como muitas outras empresas. È simples livramo-nos da parte “tóxica da empresa”, ou seja retiramos das contas “a rubrica referente aos prejuízos”.
- Obrigado, penso que agora não restaram no espírito dos Portugueses qualquer duvida sobre a origem do défice tarifário, acredito alias que todos estarão dispostos a encarar com alegria os brutais aumentos que se fazem antever.

A realidade é que a EDP opera num sector altamente protegido e subsidiado, onde o País paga quer as centrais de energia de origem fóssil estejam em funcionamento quer não. Em alguns casos até paga mais se não estiverem a produzir! A EDP comercializa um bem fundamental para qualquer sociedade, e fá-lo numa completa estrutura de oligopólio que se deve manter mesmo depois da liberalização do sector.
Não sendo especialista financeiro sei que por exemplo o Observatório para as PPP da Universidade católica defende a nacionalização das 7 contratos de concessão das ex SCUT, como forma de estagnar o continuo crescimento dos encargos com estes contratos, (jornal de Negócios 26 de Dezembro de 2012) há também quem defenda a nacionalização do défice tarifário bem como os contratos de PPP que envolvem scuts.  Eu tenho algum receio do que isto possa significar, no entanto acredito que o governo deve tomar medidas duras e de grande visibilidade para parar este crescimento incontrolado de encargos para o estado e para os Portugueses. Medidas, suficientemente rígidas para que possam servir de exemplo para aquilo que jamais se devo voltar a permitir que aconteça.
No entanto devo salientar que a EDP tem contribuído para o desenvolvimento do pais e que presta um serviço consideravelmente melhor do que muitas das congéneres mundiais, tendo a capacidade de satisfazer uns picos de consumo, evitando apagões generalizados, no entanto considero que toda esta admirável qualidade de serviço por si só, não justifica a diferença de preços face a media europeia, dos países não nucleares.

Gostava pois, de ver a mesma multidão que saiu à rua contra a alteração da TSU e que fez cair a medida, voltar às ruas para evitar a liberalização do preço da energia, com intuito de impedir o inevitável aumento dos preços, que muito provavelmente vai fazer que tais aumentos, tal como aconteceu com os combustíveis, os nossos preços estejam permanentemente acima da media europeia

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