sábado, 21 de dezembro de 2013



Recentemente tive conhecimento de uma história de vida dramática e que me faz ter a verdadeira noção de que vivemos num país de “bombeiros”, que muitas vezes chegam tarde de mais. Vou tentar descrever toda a história com a máxima precisão que me for possível, pelo que peço desde de já desculpa por alguma imprecisão que possa vir a ser detectada.
O Sr. Eng. Joaquim teria neste momento 37 anos, se a vergonha e o desespero que o país o fez sentir não o tivesse levado ao suicídio.
Este homem sem rosto para mim e para muitos daqueles que possam vir a ler este texto formou-se em engenharia mecânica e, logo após terminar o curso conseguiu encontrar trabalho numa empresa têxtil, um trabalho que lhe permitia manter um nível de vida confortável, pagar o colégio do filho e fazer férias, consultar médicos particulares, levar o filho ao cinema e fazer todas aquelas coisas, que comummente designamos de qualidade de vida e bem estar. Tal como a maioria dos portugueses, tinha um crédito à habitação do qual todos os meses tinha de pagar um prestação não me sendo possível dizer exactamente o seu valor sei que esta rondava os 600€ e, que em função do seu ordenado era perfeitamente suportável. No inicio de 2009 a empresa foi dando sinais de alguma fragilidade, acabando por falir no ano seguinte.
Ate a data o Sr. Eng Joaquim estava habituado a deslocar- se num carro cedido pela empresa, e para poder aumentar o raio de procura de emprego achou por bem comprar um carro, mas para evitar um excessivo esforço financeiro entendeu por bem faze-lo recorrendo ao credito.
 Felizmente teve apenas alguns meses no desemprego, sem que tenha tido necessidade de pedir qualquer tipo de apoio do estado. A nova fabrica para a qual foi trabalhar pareceu-lhe um projecto jovem e ambicioso e com hipóteses de dar certo e, tendo em consideração que não surgiu nenhuma outra oportunidade de emprego não hesitou em aceitar a proposta que lhe foi feita, apesar de implicar um ordenado substancialmente mais baixo e do facto de que sempre que a sua presença fosse indispensável na empresa ter de fazer 170 km para cada lado. As circunstancias de vida agora mais difíceis fizerem que tivesse de tirar o filho do colégio particular, como forma de reduzir as despesas, o que garantidamente não foi uma decisão fácil para um pai cuja a vida esteva inteiramente dedicada ao filho. Após um ano de trabalho dedicado e de promessas feitas pelos donos da fábrica devido as divergências entre os sócios acabou por volta a ficar sem trabalho. Requereu o subsídio de desemprego e por não estar habituado a lidar com a segurança social nem a depender do estado não pediu o abono de família, que lhe tinha sido retirado com base no ordenado que recebia na fábrica onde dizia ter trabalhado toda a vida. Assim teve direito a subsídio de desemprego durante um ano e meio, no valor sensivelmente de 1200€ que foram sendo reduzidos ao longo de tempo. Durante este período de tempo por não ser um homem habituado a estar em casa, foi aceitando pequenos trabalho tendo estado quase todo o período que teve direito a subsídio de desemprego, em desemprego parcial (algo que ate tomar conhecimento desta historia desconhecia ser possível), e mantendo a procura por trabalho, apesar de apenas estar obrigado, salvo erro, a candidatar-se a três empregos por mês todas as semanas enviava vários currículos, incluindo empresas fora do ramo a que estava habituado a trabalhar. Terminado o subsidio de desemprego pediu o subsídio  social de desemprego subsequente que lhe foi negado por ter um património superior a 100 Mil Euros. 
Recordo a quem estiver a ler este texto de que o Eng. Joaquim, de realmente seu não tinha mais do que as roupas, a casa que tanto contribui para que não lhe fosse dado o subsidio ainda estava a ser paga ao banco.
 Nas últimas entrevistas em que foi sendo sucessivamente dispensado, por considerarem que o seu currículo era demasiado bom para o trabalho em causa, recusando-se sabe lá Deus porque a dar-lhe trabalho apesar de todas as suas súplicas e demonstrações de que estaria disposto a fazer qualquer tipo de trabalho por um qualquer salário.
A partir daqui poderá se dizer que a vida deste homem apenas foi conhecendo diferentes patamares de sofrimento, até há poucos dias atrás em que desesperado acabou por pôr fim a vida. 
Começou por deixar de poder pagar o crédito da casa, que apesar de a ter colocado a venda numa agência imobiliária muito conhecida não consegui vender, no entanto foi sempre se esforçando por satisfazer as necessidades do filho, que hoje sabemos que muito provavelmente lhe fizerem sentir fome, e por pagar o carro agarrado a esperança de que com ele seria mais fácil conseguir trabalho. No dia em que o banco o foi despejar de casa, pegou no carro e foi levar o filho a uma instituição de acolhimento de crianças, só nesta altura e que as assistentes sociais começaram a despertar para o problema. Enquanto estas não lhe conseguiam arranjar casa o Eng Joaquim viveu no carro e recorrendo a obras de caridade foi se esforçando por manter um aspecto condigno que lhe permitisse, visitar o filho, e evitando que este tivesse ainda mais consciência da situação desumana em que o pai se encontrava. Mas como acontece frequentemente a segurança social foi mais lenta que as finanças que lhe vieram confiscar o carro por falta de pagamento do IUC, mas pouco importa se não tivessem sido as finanças  teria sido o banco ou o tribunal por falta de pagamento de portagens assim este homem viu-se atirado para debaixo da ponte, passado três dias “resolveu subir a ponte e pôr fim a vida”



Por razões que parecem óbvias não utilizei o nome verdadeiro do senhor que dá corpo a esta narrativa, e recorri e um eufemismo para explicar a forma como o Eng. Joaquim pós fim a vida vencido pela vergonha de não ter coragem de aparecer diante do filho que se sentiu forçado a entregar um sistema social que apenas se preocupou em ajuda-lo tarde de mais.
Pergunto-me de que forma terá dado o nosso país a notícia a esta criança de que o seu pai tinha morrido.
Este senhor que marcou profundamente e irremediavelmente a minha vida não teve a coragem necessária para tornar a sua história pública tal como aconteceu em casos idênticos tanto na Grécia e que terminou com o suicídio frente ao parlamento como em Espanha, e que conduziu a alteração da lei do credito no país vizinho levando os bancos e os governantes a garantir que ninguém seria despejado da soa própria casa. Este HOMEM teve ainda a lucidez de não se matar conjuntamente com o filho como já temos ouvido noticiado.

Por favor façamos todos alguma coisa para que histórias como esta passem apenas a ser uma recordação daquilo que não deve acontecer. Por favor quando alguém na rua bem vestido o abordar a pedir ajuda ouça pelo menos a sua história. Não peço que se de dinheiro mas que cada um ajude na medida das suas possibilidades

1 comentário:

  1. O que fazer?.... A Humanidade está perdida,creio eu! Não existe no mundo compaixão suficiente para mudar algo tão terrível e triste. Estas noticias fazem parte do nosso dia a dia e batem em nós como um forte murro no estômago. É lamentável que HOMEM não tome de uma vez por todas consciência de que é a partir da União dos povos que alguma coisa comece a mudar. O meu coração fica com todos os que se sentem fracos neste momento,quanto aos que desta forma partem,que as suas almas descansem em paz!!!

    Anita Libertad

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