Justiça. O que é isso!
«Durante esta semana não vão
faltar comentários à decisão do tribunal constitucional e
à forma como esta foi tomada. Assim sendo e uma vez que acredito
que não faltarão oportunidades para discutir o assunto, achei por bem
aproveitar a boleia desta decisão e começar a expor algumas das minhas
considerações sobre o sistema jurídico nacional.
Ao ler o artigo do expresso (na
pág. 4) respeitante à decisão do tribunal constitucional, ouve algumas partes
que despertaram a minha atenção da forma mais negativa possível. O primeiro
exemplo vem do facto da declaração da inconstitucionalidade da lei se ter
ficado a dever ao voto de duas juízas indicadas pelo governo no ano passado,
ser motivo de noticia. Tanto quanto me posso recordar a mesma constituição, em
que se baseou esta decisão, define uma total separação entre o poder judicial e
o poder “politico”.
A Segunda coisa que me
impressionou foi o comentário, feito pelo PSD na voz de Teresa Leal Coelho e
publicado neste jornal sobre a decisão do tribunal constitucional, dizendo que
o partido estava “perplexo e muito preocupado” acusando ainda os juízes de “um
certo alheamento do contexto económico e financeiro do país”. Talvez este
comentário tenha alguma razoabilidade mas o que diria esta senhora, quando a
umas semanas atrás era notícia do J.N. a condenação de um professor por
pedofilia a 3 ou 4 anos de pena suspensa, que assim pode manter o seu cargo
como professor, voltando a dar aulas a menores? Não será este um caso ainda
mais grosseiro de alheamento da realidade social, e daquilo que facilmente se
considera como o mínimo de justiça espectável? Porque não foi este professor,
condenado a uma pena de prisão efectiva, uma vez que os seus crimes foram dados
como provados, e exonerado consecutivamente?
Que justiça é esta em que um
presidente de câmara consegue entrepor uma quantidade indefinida, e
aparentemente sem fim à vista, de recursos judiciais para evitar cumprir pena
de prisão tendo assim já conseguido a prescrição de algumas das sentenças. Dando-se
até ao trabalho de ligar para uma estação de televisão a esclarecer quais foram
as penas de que se conseguiu ver livre com as suas artimanhas? Que justiça e
esta em que os ricos e influentes conseguem escapar por entre os dedos da
justiça e os mais fracos ficam lá encurralados? Há nas prisões um elevado
número de presos por crimes considerados bem menores – pessoas apanhadas a
roubar bens alimentares no supermercado que não conseguem pagar a multa imposta
por esta suposta justiça e que têm de passar uma ou mais noites numa cela, como
resultado de um processo jurídico que foi, sem dúvida, mais “valioso” do que o
valor furtado. Como podemos querer responsabilizar judicialmente um ministro
quando não o conseguimos fazer com um presidente de câmara?
De facto a justiça é cega e
surda e, ainda mais grave, talvez seja autista, vivendo aliada da realidade em
que o país se encontra favorecendo de forma mais ao menos constante os ricos e
poderosos.
E já agora uma breve nota: um
juiz do supremo tribunal pode reformar-se aos 40 anos após 10 de serviço, e com
uma reforma bem simpática. É apenas mais uma daquelas coisas extraordinárias,
de uma constituição que se diz igualitária.
É mais um dos monstros que a
Nação Valente e Imortal de um Povo de “brandos costumes” criou e cria com a sua
pacata demissão política.»
Infelizmentte é o país que temos! O seu comentário diz tudo e passo a citar: a justiça é cega...Chega a ser impresssionante o que vemos!
ResponderEliminarInfelizmente ou felizmente é o país que construímos com a nosso eterno "encolher de ombros". Da mesma forma, temos mãos e voz para travar tudo isto porque AINDA somos um povo soberano. Se não o fizermos passaremos rapidamente à "subterraniedade" da existência - seremos enterrados vivos. Seremos exterminados pelos que elegemos para que nos servissem na justa medida das nossas necessidades e exigências (para isso lhes pagamos). Os órgãos de poder não geram receita - quem gere a receita é quem produz e trabalha e compra e move a economia e vive e respira e dorme e come e sorri.
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