Recentemente tive conhecimento de uma história de vida dramática e
que me faz ter a verdadeira noção de que vivemos num país de “bombeiros”, que
muitas vezes chegam tarde de mais. Vou tentar descrever toda a história com a
máxima precisão que me for possível, pelo que peço desde de já desculpa por
alguma imprecisão que possa vir a ser detectada.
O Sr. Eng. Joaquim teria neste momento 37 anos, se a vergonha e o
desespero que o país o fez sentir não o tivesse levado ao suicídio.
Este homem sem rosto para mim e para muitos daqueles que possam
vir a ler este texto formou-se em engenharia mecânica e, logo após terminar o
curso conseguiu encontrar trabalho numa empresa têxtil, um trabalho que lhe
permitia manter um nível de vida confortável, pagar o colégio do filho e fazer
férias, consultar médicos particulares, levar o filho
ao cinema e fazer todas aquelas coisas,
que comummente designamos de qualidade de vida e bem estar.
Tal como a maioria dos portugueses, tinha um crédito à habitação do qual todos
os meses tinha de pagar um prestação não me sendo possível dizer exactamente o
seu valor sei que esta rondava os 600€ e, que em função do seu ordenado era
perfeitamente suportável. No inicio de 2009 a empresa foi dando sinais de
alguma fragilidade, acabando por falir no ano seguinte.
Ate a data o Sr. Eng Joaquim estava habituado a deslocar- se num
carro cedido pela empresa, e para poder aumentar o raio de procura de emprego
achou por bem comprar um carro, mas para evitar um excessivo esforço financeiro
entendeu por bem faze-lo recorrendo ao credito.
Felizmente teve apenas alguns meses no desemprego, sem que
tenha tido necessidade de pedir qualquer tipo de apoio do estado. A nova
fabrica para a qual foi trabalhar pareceu-lhe um projecto jovem e ambicioso e
com hipóteses de dar certo e, tendo em consideração que não surgiu nenhuma
outra oportunidade de emprego não hesitou em aceitar a proposta que lhe foi
feita, apesar de implicar um ordenado substancialmente mais baixo e do facto de
que sempre que a sua presença fosse indispensável na empresa ter de fazer 170
km para cada lado. As circunstancias de vida agora mais difíceis fizerem que
tivesse de tirar o filho do colégio particular, como forma de reduzir as
despesas, o que garantidamente não foi uma decisão fácil para um pai cuja a
vida esteva inteiramente dedicada ao filho. Após um ano de trabalho dedicado e
de promessas feitas pelos donos da fábrica devido as divergências entre os
sócios acabou por volta a ficar sem trabalho. Requereu o subsídio de desemprego
e por não estar habituado a lidar com a segurança social nem a depender do
estado não pediu o abono de família, que lhe tinha sido retirado com base no
ordenado que recebia na fábrica onde dizia ter trabalhado toda a vida. Assim
teve direito a subsídio de desemprego durante um ano e meio, no valor
sensivelmente de 1200€ que foram sendo reduzidos ao longo de tempo. Durante
este período de tempo por não ser um homem habituado a estar em casa, foi
aceitando pequenos trabalho tendo estado quase todo o período que teve direito
a subsídio de desemprego, em desemprego parcial (algo que
ate tomar conhecimento desta historia desconhecia
ser possível), e mantendo a procura por trabalho, apesar de
apenas estar obrigado, salvo erro, a candidatar-se a três empregos por mês
todas as semanas enviava vários currículos, incluindo empresas fora do ramo a
que estava habituado a trabalhar. Terminado o subsidio de desemprego pediu o
subsídio social de desemprego subsequente que lhe foi negado por ter um
património superior a 100 Mil Euros.
Recordo a quem estiver a ler este texto de que o Eng. Joaquim, de
realmente seu não tinha mais do que as roupas, a casa que tanto contribui para
que não lhe fosse dado o subsidio ainda estava a ser paga ao banco.
Nas últimas entrevistas em que foi sendo sucessivamente
dispensado, por considerarem que o seu currículo era demasiado bom para o
trabalho em causa, recusando-se sabe lá Deus porque a dar-lhe trabalho apesar
de todas as suas súplicas e demonstrações de que estaria disposto a fazer
qualquer tipo de trabalho por um qualquer salário.
A partir daqui poderá se dizer que a vida deste homem apenas foi
conhecendo diferentes patamares de sofrimento, até há poucos dias atrás em que
desesperado acabou por pôr fim a vida.
Começou por deixar de poder pagar o crédito da casa, que apesar de
a ter colocado a venda numa agência imobiliária muito conhecida não consegui
vender, no entanto foi sempre se esforçando por satisfazer as necessidades do
filho, que hoje sabemos que muito provavelmente lhe fizerem sentir fome, e por
pagar o carro agarrado a esperança de que com ele seria mais fácil conseguir
trabalho. No dia em que o banco o foi despejar de casa, pegou no carro e foi
levar o filho a uma instituição de acolhimento de crianças, só nesta altura e
que as assistentes sociais começaram a despertar para o problema. Enquanto
estas não lhe conseguiam arranjar casa o Eng Joaquim viveu no carro e
recorrendo a obras de caridade foi se esforçando por manter um aspecto condigno
que lhe permitisse, visitar o filho, e evitando que
este tivesse ainda mais consciência da situação desumana em
que o pai se encontrava. Mas como acontece frequentemente a
segurança social foi mais lenta que as finanças que lhe vieram confiscar o
carro por falta de pagamento do IUC, mas pouco importa se não tivessem sido as
finanças teria sido o banco ou o tribunal por falta de pagamento de
portagens assim este homem viu-se atirado para debaixo da ponte, passado três
dias “resolveu subir a ponte e pôr fim a vida”
Por razões que parecem óbvias não utilizei o nome
verdadeiro do senhor que dá corpo a esta narrativa, e recorri e um
eufemismo para explicar a forma como o Eng. Joaquim pós fim a vida vencido pela
vergonha de não ter coragem de aparecer diante do filho que se sentiu forçado a
entregar um sistema social que apenas se preocupou em ajuda-lo tarde de mais.
Pergunto-me de que forma terá dado o nosso país a notícia a esta
criança de que o seu pai tinha morrido.
Este senhor que marcou profundamente e irremediavelmente a minha
vida não teve a coragem necessária para tornar a sua história pública tal como
aconteceu em casos idênticos tanto na Grécia e que terminou com o suicídio
frente ao parlamento como em Espanha, e que conduziu a alteração da lei do
credito no país vizinho levando os bancos e os governantes a garantir que
ninguém seria despejado da soa própria casa. Este HOMEM teve ainda a lucidez de
não se matar conjuntamente com o filho como já temos ouvido noticiado.
Por favor façamos todos alguma coisa para que histórias como esta
passem apenas a ser uma recordação daquilo que não deve acontecer. Por favor
quando alguém na rua bem vestido o abordar a pedir ajuda ouça pelo menos a sua
história. Não peço que se de dinheiro mas que cada um ajude na medida das suas
possibilidades


